31/08/2026 Agosto Lilás: Uma transformação que começa pelo respeito.
Algumas transformações começam quando uma realidade normalizada passa a ser questionada.
Um comentário que machuca. Um comportamento de controle que é confundido com cuidado. A tentativa de decidir com quem uma mulher pode falar, onde pode ir ou como deve se vestir. O medo de contrariar alguém dentro da própria casa.
Nem sempre a violência começa com uma agressão física. Muitas vezes, ela se instala aos poucos, atravessando relações, espaços e escolhas até comprometer aquilo que toda pessoa deveria ter como direito: viver com segurança, liberdade e dignidade.
É para ampliar esse olhar que existe o Agosto Lilás, campanha dedicada à conscientização e ao enfrentamento da violência contra as mulheres.
Em 2026, o movimento ganha um marco importante: a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Criada em 2006, a legislação representou uma mudança fundamental na forma como o Brasil reconhece e enfrenta a violência doméstica e familiar contra as mulheres.
Duas décadas depois, a existência da lei continua sendo fundamental. Mas também reforça uma necessidade: conhecer, reconhecer e transformar as situações que ainda fazem parte da realidade de tantas mulheres.
QUANDO A VIOLÊNCIA NÃO DEIXA MARCAS VISÍVEIS
A violência contra a mulher não acontece de uma única maneira.
A Lei Maria da Penha reconhece cinco formas de violência doméstica e familiar: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Em 2026, a legislação também passou a reconhecer a violência vicária, quando alguém utiliza pessoas ou vínculos importantes para a mulher como instrumento para atingi-la.
Cada uma delas pode se manifestar de diferentes formas.
A violência psicológica pode aparecer em ameaças, humilhações, chantagens, perseguições, isolamento e controle. A patrimonial pode envolver a retenção de documentos, destruição de bens ou controle dos recursos financeiros. A sexual acontece quando não existe consentimento, inclusive dentro de relações afetivas. Já a violência moral pode se manifestar por meio de calúnia, difamação e injúria.
São situações diferentes, mas que têm algo em comum: atingem a autonomia e a dignidade das mulheres.
Reconhecer essas formas de violência é importante porque, muitas vezes, aquilo que é tratado como ciúme, cuidado, preocupação ou “problema de casal” pode ser, na verdade, uma forma de controle.
E quanto antes uma situação é reconhecida, maiores podem ser as possibilidades de buscar ajuda e interromper esse ciclo.
UMA REALIDADE QUE NÃO PODE SER TRATADA COMO PARTICULAR
Durante muito tempo, a violência dentro de uma relação foi vista como uma questão privada.
Mas violência doméstica não é assunto particular. É uma violação de direitos e uma questão que envolve toda a sociedade.
Os números mostram a dimensão desse desafio. No primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou 741 feminicídios, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Por trás de cada número existe uma história, uma família e uma vida interrompida.
Por isso, enfrentar a violência contra as mulheres não significa apenas agir depois que uma agressão acontece. Também significa construir uma sociedade capaz de reconhecer os sinais, não naturalizar comportamentos violentos e fortalecer caminhos para que mulheres possam buscar proteção.
É nesse ponto que a informação ganha outra dimensão.
Conhecer os próprios direitos. Saber que determinadas atitudes também são formas de violência. Entender onde buscar ajuda. Ter alguém que escute sem julgar.
Tudo isso pode fazer parte de uma rede capaz de mudar caminhos.
NINGUÉM PRECISA ENFRENTAR A VIOLÊNCIA SOZINHA
Romper com uma situação de violência nem sempre é simples.
Existem mulheres que enfrentam dependência financeira, medo, ameaças, filhos, isolamento e a falta de uma rede de apoio. Por isso, perguntar por que uma mulher não saiu antes ou por que permaneceu naquela relação significa ignorar a complexidade de uma situação que pode envolver riscos concretos.
Acolher também é não julgar.
Entre os caminhos possíveis de auxílio está o Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, que funciona gratuitamente, 24 horas por dia, oferecendo orientação, informações sobre direitos e serviços da rede de atendimento, além de receber denúncias.
Em situações de emergência ou violência em andamento, o canal indicado é o 190, da Polícia Militar.
Também existem as medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha, que podem ser utilizadas para proteger mulheres em situação de violência e seus dependentes.
Conhecer esses recursos não significa esperar que uma situação chegue ao limite.
Significa saber que existem caminhos.
TRANSFORMAR TAMBÉM É CONSTRUIR AUTONOMIA
No Instituto Reação, acreditamos que oferecer oportunidades é também ampliar possibilidades de futuro.
Por meio do esporte, da educação e do acesso à cultura, trabalhamos para que crianças, adolescentes e jovens desenvolvam novas perspectivas sobre si mesmos e sobre o mundo ao seu redor.
Essa transformação passa pelo desenvolvimento da autonomia, pelo fortalecimento de vínculos e pela criação de espaços onde cada pessoa possa reconhecer seu próprio potencial.
Quando falamos sobre o enfrentamento da violência contra as mulheres, esses elementos também são fundamentais.
Uma menina que cresce sabendo que tem direito ao respeito. Que aprende a reconhecer relações saudáveis.Que encontra espaços seguros para falar, perguntar e ser ouvida. Que tem acesso à educação e a oportunidades para construir seu próprio caminho.
E essa transformação também alcança as mulheres que fazem parte da vida dos nossos alunos.
É nesse contexto que nasce o Reação com Elas, programa criado para empoderar e dar voz às mulheres da nossa comunidade, fortalecendo sua autonomia e ampliando espaços de escuta, acolhimento e desenvolvimento.
Tudo isso faz parte de uma transformação que começa muito antes de uma situação de violência acontecer.
É por isso que falar sobre o Agosto Lilás também é falar sobre prevenção.
Sobre as relações que construímos, os comportamentos que ensinamos a reconhecer e sobre aquilo que escolhemos não normalizar.
O MOVIMENTO NÃO TERMINA EM AGOSTO
O Agosto Lilás coloca a violência contra as mulheres no centro da conversa, mas essa conversa não pode terminar quando o mês acaba.
Ela precisa continuar nas famílias, nas escolas, nos espaços de trabalho, nas instituições, nas comunidades e em todos os lugares onde relações são construídas.
Porque combater a violência também é transformar a cultura que, muitas vezes, permite que ela seja silenciada.
No Instituto Reação, acreditamos que transformar um para transformar o todo também significa criar condições para que cada pessoa possa construir uma vida com mais escolhas, oportunidades e segurança.
Neste Agosto Lilás, reforçamos a importância de falar, ouvir, informar e agir.
Porque grandes transformações começam quando deixamos de aceitar como normal aquilo que nunca deveria ser.